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Crítica: A Bruxa (2016)

29 fev

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A Bruxa é sem dúvidas um dos filmes de terror mais elogiados dos últimos tempos, coisa rara, já que nem sempre o gênero é visto com bons olhos por grande parte do público. No entanto, o longa do diretor Robert Eggers, acostumado a dirigir curtas-metragens, transforma o que poderia ser um simples blockbuster, em algo verdadeiramente interessante.

The Witch”, título original, traz à tona conceitos bem peculiares e perturbadores, como a relação da religião com o uso de artifícios geralmente utilizados para trazer a ordem, a partir de um medo generalizado. E não podemos negar que todas essas coisas sobre o céu e o inferno são histórias realmente assustadoras, e é bem por aí que o filme se estabelece.

A trama se passa na década de 1630. O casal William (Ralph Ineson) e Katherine (Kate Dickie) tentam levar uma vida modesta em meio a uma casa de campo totalmente afastada da cidade grande. De devoção cristã, ambos vivem suas vidas a partir de ensinamentos religiosos, e isso também vale para seus 5 filhos, a pré-adolescente Thomasin (Anya Taylor-Joy) e os menores Caleb (Harvey Scrimshaw), Mercy (Ellie Grainger) e Jonas (Lucas Dawson), além do recém-nascido Samuel. Quando de repente Samuel desaparece enquanto estava aos cuidados de sua irmã Thomasin, um clima de caos e tensão se estabelece sobre a família, que começa a suspeitar da presença do mal em sua casa, o que poderia também ter relação com a seca de sua colheita, a partir de uma maldição proferida.

A película possui um roteiro não muito original, admito, mas é trabalhado de uma maneira bem eficiente pelo diretor Robert Eggers. Todo o filme é ambientado dentro de um cenário completamente cinzento e obscuro, o que nos traz uma sensação de terror a todo instante. Já a trilha sonora, que aliás para mim foi o ponto alto da obra, juntamente com a fotografia, aparece como um instrumento valioso nas cenas de suspense. Neste quesito consegui identificar ali muito do que rolou nos filmes de terror das décadas de 70 e 80, com músicas intensas a cada cena mais sinistra, a exemplo de Sexta-Feira 13 (1980), Halloween (1978) e O Exorcista (1973).  Já a fotografia chega a ser fascinante, com planos abertos trazendo toda a plenitude da beleza de um cenário bucólico, inspirado em um sistema feudalista, já que os protagonistas eram imigrantes.

Como relatei anteriormente, a trama faz uma ligação com o misticismo cristão, no que diz respeito à existência do bem e o mal. O bem que é ligado a tudo o que possui relação com Deus e a Bíblia, e o mal personificado na presença do diabo e a bruxa, a qual o filme faz alusão. É interessante ver a relação que os personagens possuem com a sua fé, sempre se punindo por conta de desejos e prazeres que identificam como sendo de natureza maligna, ou simplesmente o fato de apenas existirem, o que já seria suficiente para serem condenados ao inferno pelo resto de suas vidas. Essa relação mais psicológica é o que nos faz entender o filme não como mais um “cult do terror”, mas como algo de fato legítimo e bem introduzido para a reflexão de nossa sociedade.

Quanto às atuações, não tenho como dar crédito a apenas uma única pessoa, pois todos foram verdadeiramente magníficos do início ao fim, principalmente as crianças. A atriz esteve completamente entregue à sua Thomasin, já Harvey Scrimshaw me surpreendeu com a qualidade de sua atuação apesar da pouca idade. E Ralph Ineson e Kate Dickie se mostraram tecnicamente perfeitos.

A Bruxa é de fato um filme muito interessante e que certamente irá assustar muita gente, mas não se engane achando que você terá grandes sustos, daquelas de pular da cadeira. Este filme traz um terror muito mais psicológico do que qualquer outra coisa. A tensão do mesmo é construída gradativamente, acompanhada de uma trilha musical muito bem escolhida por sinal. A única que coisa que realmente acho é que o final poderia ter sido muito mais interessante e perturbador, pois o filme tinha potencial para tal. Acho que Eggers marcou bobeira em não aproveitar a essência de seu elenco e a qualidade de sua produção. No mais, vale muito uma conferida.

Trailer:

*Crítica também publicada no site Blah Cultural

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