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Crítica: Jogos Vorazes: A Esperança – O Final (2015)

25 nov

jogos

E depois de tanta expectativa, tanta espera, eis que a franquia de Suzanne Collins finalmente chega ao fim com Jogos Vorazes: A Esperança – O Final. Devo admitir que, apesar da saga ser bastante interessante, principalmente no âmbito político, ela não conseguiu se manter e acabou frustrando grande parte dos expectadores com um final totalmente desmotivador.

A verdade é que esta última película estava sendo muito aguardada, pois nela estava concentrada toda a munição que Collins e o diretor Francis Lawrence (Eu Sou A Lenda) haviam guardado depois do anterior ter sido quase que um chá de Rivotril para muita gente. E não devo negar, tivemos sim muita ação, nada se comparado a Maze Runner: Prova de Fogo (2015), claro, porém de certa forma a obra conseguiu prender atenção do público.

O filme começa de maneira repentina, sem uma introdução ou grande abertura, justamente para passar uma sensação de continuidade. Katniss (Jennifer Lawrence) está de volta à sua base aliada, porém tentando se recuperar dos ferimentos causados por Peeta (Josh Hutcherson), que quase a matou estrangulada após despertar de seu transe causado pelas tropas de Snow (Donald Sutherland).

Para mim o grande ponto de Jogos Vorazes é certamente a sua audácia de conseguir trabalhar características sociais e políticas de uma forma instigante e ao mesmo tempo persuasiva, pois a cada cena, a cada acontecimento, os personagens vão tomando forma e tudo parece não fazer mais um grande sentido, nos forçando a realizar uma nova estratégia de escape para que possamos entender o que de fato está acontecendo ali. É uma narrativa transitória que desperta no expectador ou leitor dos livros, uma capacidade de raciocínio lógico que nos eleva a um certo grau de consciência dentro do nosso mundo real. No entanto, o grande problema neste filme é justamente a falta de tempo para que esses por menores pudessem se estabelecer adequadamente. A sensação que pairava era de que seguíamos uma corrida contra o tempo no intuito de que Katniss fosse atrás de sua vingança contra a Capital, mais especificamente contra Snow.

Ao que parece, a união de um jogo de valores, uma trama ágil e ao mesmo tempo persuasiva, características marcantes da saga, deixaram de coexistir de forma tão efetiva em A Esperança – O Final. O que vemos de início é um roteiro focado no “fazer e acontecer”, com pouco brilhantismo na condução de suas ideologias peculiares e ao mesmo tempo sem tanto impacto emocional. Um claro exemplo disso é a forma como a relação do triângulo amoroso entre Katniss, Peeta e Gale (Liam Hemsworth) se desenvolve ao longo do filme. Parece que todo aquele caos sentimental que acontecera nos últimos três longas não valeu de absolutamente nada, pois tudo foi adaptado de forma terrivelmente fria. Em tese isso pode ter sido ocasionado pela tensão pré-guerra em que ambos estavam expostos, porém ainda não encontro uma justificativa plausível para tal.

Outro grande problema de Jogos Vorazes: A Esperança – O Final foi certamente a quase inexistência de personagens de certa relevância para saga como Johanna Mason (Jena Malone) e Haymitch Abernathy (Woody Harrelson). Malone então teve sua participação reduzida a quase que um trabalho de figuração, uma coisa totalmente patética. Já Herrelson só apareceu realizado pontas em cenas de continuidade. Se isso tivesse acontecido unicamente com o Plutarch do falecido Philip Seymour Hoffman seria compreensível, já que o ator morreu em meio às gravações do filme, mas não foi o que ocorreu.

Quanto as atuações, Jennifer Lawrence esteve bem mediana interpretando a indecisa Katniss Everdeen, suas expressões em certos momentos soavam ou forçadas demais, ou totalmente apagadas. Tá certo que a personagem estava tentando lidar com um grande trauma e a sua situação atual não era das melhores, mas ainda sim senti que faltou um pouco mais de entrega por parte da moça. Nem parece aquela garota que roubou a cena no excelente Inverno da Alma (2011) da diretora Debra Granik. Já ó restante do elenco conseguiu manter um certo nível de equivalência, até porque não houve muito espaço para tantos destaques. Além de Jennifer os que mais apareceram foram Josh Hutcherson, Liam Hemsworth (muito mal aproveitado também diga-se de passagem), Donald Sutherland e Juliane Moore.

Já o ponto forte mesmo do filme foram as cenas de ação, principalmente na luta contra os Bestantes. Algumas sequências foram tão envolventes que até nos fizeram esquecer algumas perdas importantes que ocorreram pelo caminho. A trilha sonora também alcançou um excelente resultando em cima dessas tomadas mais explosivas. Já a fotografia aconteceu de forma simples, sem planos grandiosos ou tão impactantes. Quanto ao roteiro como um todo, eu entendi o sofrimento que seria encaixar tudo aquilo em um único filme até relevei a necessidade de evitar grandes suspenses para o ápice final. No fim ficou tudo muito previsível, mas já era de se esperar.

Jogos Vorazes – O Final com toda certeza não surpreendeu e de fato me deixou com a sensação de “missão incompleta”. Toda essa história de “guardar o melhor para o final” dessa vez não funcionou, ao contrário, acabou até atrapalhando o andamento de uma trama que tinha um grande potencial. O melhor que temos a fazer é idealizarmos a franquia dentro dos dois primeiros filmes. É o que irei fazer.  

Trailer:

*Crítica também postada no site Cabana do Leitor

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Crítica: My Name Is Now, Elza Soares (2015)

25 nov

elza

No último dia 14 de novembro estive presente no Festival Mimo, que desta vez aterrissou na Cidade Maravilhosa, e com isso tive a oportunidade de conferir o documentário My Name Is Now, Elza Soares, dirigido por Elizabeth Martins Campos.

O filme traz uma abordagem única e diferenciada de tudo o que já poderíamos ter visto desta diva do black-samba-soul brasileiro. Elza Soares está no centro dos holofotes, totalmente nua e desprovida de qualquer pudor ao falar sobre tudo o que passou em sua vida. O projeto põe Elza de frente para um espelho, falando para ele, mas ao mesmo tempo discursando e fazendo um desabafo literal, se desfazendo de todo e qualquer sentimento de culpa e hipocrisia que lhe impuseram ao longo de sua trajetória.

Elza Soares sempre foi conhecida por ser uma mulher de fibra, forte, guerreira, que passou por poucas e boas nessa vida, mas que nunca se deixou abalar por conta disso. O documentário aborda muito esse lado, a força desta grande cantora, que mesmo tendo sofrido preconceito por ser mulher, negra e pobre, nunca deixou de correr atrás de seus objetivos e hoje tem orgulho de ser quem é.

Com um plano totalmente fechado, iluminando somente o rosto de Elza, característica da videoarte, muito usado no cinema mineiro, a artista encara a realidade de forma bastante altiva, parafraseando a sabedoria de uma mulher que chegou aos 78 anos de idade, tendo a perfeita clareza do lugar que lhe foi garantido. No entanto, ao mesmo tempo que este espelho nos faz enxergar uma Elza determinada e segura de si, ele também nos mostra o lado sofrido da artista, que carrega consigo uma profunda tristeza, principalmente em relação a morte de seus três filhos. Ela confessa que quando seu primeiro filho se foi, devido a um acidente automobilístico que ocorreu no ano de 1986, um grande vazio e sentimento de impotência lhe pairou sobre a cabeça. Sua vida a partir de então nunca mais fora a mesma.

O documentário faz menções a grandes acontecimentos da vida da diva, como seu romance com o jogador Garrincha, seu envolvimento com as drogas depois da notícia da morte de seu filho, que resultou em um uso abusivo de cocaína e uma vontade louca de querer morrer. Em relação à música, vemos uma Elza mais madura, com uma voz menos potente e habilidosa em relação a seus tempos áureos, mas ainda sim característica. No vídeo, a cantora abusa da técnica do “scat singing”, uma prática que consiste no uso de palavras sem sentindo como meio de improviso, muito popular também com astros como Ella Fitzgerald e Louis Armstrong.

A verdade é que My Name Is Now, Elza Soares não é um documentário do tipo informativo, ele na verdade segue por um caminho mais reflexivo do que qualquer outra coisa, sem traçar uma linha narrativa cronológica, aliás uma coisa que me incomodou bastante, não o fato de não ter seguido uma ordem, mas a maneira como tudo foi trabalhado. As vezes sentia uma sensação de desconforto e de que aquilo nunca mais fosse acabar. O uso repetitivo de imagens aleatórias, que fizessem uma certa ligação com o tom obscuro e enigmático do filme poderia ter sido usado de uma maneira um pouco mais ponderada e mais agradável aos olhos do público. De fato quem não é muito fã desse tipo de pegada não consegue assistir até o final. Não foi à toa que muitas pessoas deixaram a sessão antes do término.

No mais, acredito que o filme de Elizabeth Campos tenha cumprido o seu papel. Trouxe uma Elza Soares bastante segura, sem medo de ter se tornado uma caricatura de si mesma, dizendo e fazendo coisas que certamente não seriam exibidas no horário nobre da TV da “família tradicional”. Esta é a Elza do “now”, pois como ela mesma diz:  “eu nasci agora, parece que estou começando agora, que é a minha primeira música”. Com certeza vale uma espiada.

Trailer:

*Crítica também postada no site Blah Cultural

Crítica: 82 Minutos (2015)

25 nov

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Com a proposta de desvendar o que existe por detrás da construção do Carnaval carioca, o “longa-documentário” de Nelson Hoineff (Alô, Alô Terezinha!) 82 Minutos (em referência ao tempo de desfile), dá vida a tudo aquilo que fica escondido atrás da magia da Marquês de Sapucaí. Falo do trabalho árduo, contínuo, empenhado para fazer com que aqueles minutos se tornem eternos na lembrança do público.

Para ilustrar uma linha narrativa que vai da escolha do samba-enredo até a apuração dos votos na contagem final, Hoineff decidiu pela escola de samba Portela. De acordo com o próprio, depois de realizar uma busca de campo para saber qual seria a escola adequada, passando por várias como Mocidade e Salgueiro, Nelson não teve dúvidas em saber qual seria a escolhida depois de visitar a escola de Madureira, na zona norte do Rio.

O filme acompanha o passo a passo de todo um trabalho voltado exclusivamente para o Carnaval. O que me chamou bastante a atenção foi a forma como o documentário foi traçando sua narrativa, que começa com a união de esforços e muita seriedade para fazer com que tudo aquilo aconteça da maneira correta, até o sentimento de união e de paixão pela escola nos momentos finais antes do desfile. O envolvimento emocional de todos os integrantes da Portela acontece aos poucos, passo a passo, criando uma sensação de expectativa entre os personagens e o público que está assistindo.

A edição do documentário para mim ficou uma coisa meio ambígua. Apesar de ela ter sido bastante objetiva em relação a fatos relevantes, passando por cenas em que era nítido o envolvimento daquelas pessoas com o trabalho em favor do Carnaval, também tivemos partes repetitivas demais, que pouco acrescentavam para o resultado final, mas estas foram realmente minoria. Eu só fiquei mesmo com a sensação de que o filme poderia ter durado um pouco menos, pois não tinha realmente necessidade daquelas duas horas e dez minutos.

Continuando a falar do olhar clínico do diretor, destaco a presença de figuras de bastante carisma no vídeo, como Nilce Fran, coordenadora das passistas da Portela, que indiscutivelmente roubou a cena com seu jeito despojado de ser. Além disso, tivemos também o casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, Alex Marcelino e Danielle Nascimento, que transmitiram uma grande química e uma verdadeira paixão através da tela.

Uma coisa que me deixou curioso foi o próprio Nelson Hoineff ter dito que esse não era um filme sobre a Portela. Como não? Neste caso acho que houve um grande equívoco, pois a obra é única e exclusivamente sobre a escola, pois mesmo que você queira, não existe uma maneira de falar de Carnaval, tendo uma escola como pano de fundo, sem você criar um vínculo direto com a mesma. É impossível. A não ser que não exista qualquer tipo de apelo emocional e que a coisa esteja focada totalmente na parte técnica, pois se não for dessa maneira, não dá.

82 Minutos é de fato um excelente documentário, com uma ótima fotografia e algumas sequências bem interessantes, apesar de algumas câmeras tremidas. Ele realmente fala a linguagem do Carnaval Carioca, traduz a emoção e traz à tona todo o trabalho e seriedade deste espetáculo grandioso. Está muito bem recomendado.

*Crítica também postada no site Blah Cultural

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