Crítica: Beijei uma Garota (2015)

27 jul

Beijei uma Garota

Após estrear com louvor no Festival International du Film de l’Alpe d’Huez, na França, e de uma temporada de sucesso por lá, a comédia romântica Beijei Uma Garota (Toute première fois), chega ao Brasil no próximo dia 30 de julho.

A película estrelada pela sensação francesa do momento, o ator Pio Marmaï, aborda um tema bastante discutido nos últimos tempos aqui no Brasil, a homossexualidade. Entretanto, engana-se quem pensa que o longa é mais um daqueles filmes clichês construídos sobre um relacionamento entre dois homens ou duas mulheres. A obra dos diretores Maxime Govare e Noémie Saglio vai muito mais além, e consegue trazer uma outra discussão à tona: a bissexualidade, ou uma sexualidade livre.

Se no mundo de hoje falar sobre relações entre pessoas do mesmo sexo ainda parece difícil, imagina você construir uma narrativa sobre o tema, transcendendo o conceito pré-estabelecido que nós temos sobre a sexualidade humana. De fato, para muita gente romper barreiras como essa pode soar confuso demais. Todavia, a película francesa consegue fazer todo esse caminho de uma forma leve e bastante descontraída. Afinal, ninguém está livre de se apaixonar por quem quer que seja, não é verdade?

Toute première fois, título original, conta a história de Jérémie (Pio Marmaï), um empresário bem sucedido, que há mais de 10 anos possui uma relação estável com o cirurgião Antoine (Lannick Gautry). Tudo ia muito bem na vida de Jérémie, até que em um determinado dia ele simplesmente desperta nu em uma cama, ao lado de Adna (Adrianna Gradziel), uma belíssima loira sueca. A partir daí, ele precisa confrontar seus sentimentos e entender sua repentina atração por aquela mulher. Só que para isso, ele terá de driblar sua família, amigos e decidir o seu futuro com Antonie.

Esse estranho entrosamento que o personagem de Pio Marmaï sente em relação à loira misteriosa de sua vida, não é novidade no cinema. A verdade é que já vimos isso, só que no sentido inverso, em Beijando Jessica Stein (2001), onde a personagem de Jennifer Westfeldt, de repente, se vê totalmente envolvida com uma outra mulher. Não vamos negar que devido à sociedade machista em que estamos inseridos – e não pense que é só entre grupos heterossexuais-, falar sobre um tema desses abordando duas mulheres, é de fato muito mais tênue do que sendo apenas com homens. E a partir do momento em que escolhemos um lado, fica ainda mais difícil a travessia da ponte para um mundo novo, onde ninguém irá te entender e todos irão te julgar. Não é fácil algo assim, mas acredito que o trabalho de Govare e Saglio tenha sido de grande valia para essa percepção. Unindo o carisma do protagonista, juntamente com o humor de Charles (Franck Gastambide), o amigo garanhão de Jéréme, o engajado roteiro consegue aos poucos desencadear em nós, sentimentos e opiniões que poderíamos ter em relação à trama.

As piadas e algumas atitudes de Charles são nitidamente de cunho preconceituoso, mas são empregadas de uma maneira bem discreta para garantir o riso frouxo do público, já que elas são emitidas a partir de um personagem totalmente caricato. Outras situações clichês que normalmente acometem gays ou lésbicas na ficção, como ter de provar sua preferência por homens ou mulheres, estão presentes nesta película como de costume. Na trama, Jéréme é forçado a ir em um clube de stripper para saber se não está deixando de ser gay, ou se é algo passageiro. Quando na verdade ele apenas sente atração sexual por uma menina em específico. Afinal, o que deve ser isso? É um mistério do coração, é uma coisa que só o amor pode nos responder.

A química entre todos do elenco é excelente, principalmente entre Marmaï e Gastambide. Os dois belos atores estão em excelente forma dentro do filme. Os diálogos rápidos, que são de praxe em filmes franceses, funcionaram muito bem entre ambos. Gostei também da participação do ator Lannick Gautry como o adorável Antonie. Seu personagem não precisou se fazer de sofrido para que tivéssemos pena dele, tudo foi acontecendo tão naturalmente, que não demorou muito para que estivéssemos apegados ao mesmo.

Preciso muito falar sobre a excelente trilha sonora deste filme. O cuidado para que cada música combinasse com o momento extado da película foi lindo demais. A fotografia também é outra parte destacável desta obra, mixando as belas construções francesas, a natureza local e o charmoso inverno europeu, o longa conseguiu um resultado ainda mais charmoso e propício para uma comédia romântica.

Beijei Uma Garota é certamente uma obra que vale a pena ser vista. Se não for pela ousadia de inverter uma corriqueira situação hétero para um mundo homoafetivo, que seja por sua trilha, fotografia ou até por sua deliciosa comédia no bom e velho estilo francês de ser.

Trailer:

*Crítica também postada no site Blah Cultural

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