Crítica: Argus Montenegro & A Instabilidade do Tempo Forte (2012)

22 maio

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Vencedor do Prêmio de Melhor Filme no 5º Arraial CineFest (2012), Melhor Documentário pelos júris de cidades como Belo Horizonte e Salvador, e pelo júri oficial no Festival Conexão Vivo Movida, Argus Montenegro & A Instabilidade do Tempo Forte é certamente a bela homenagem que o grande baterista brasileiro poderia ter tido.

A obra é uma realização da Okna Produções, que teve a brilhante ideia de falar um pouco da vida deste excelente músico, nascido em 4 de junho de 1936, na cidade de Porto Alegre, e falecido no mesmo local, em 15 de junho de 2008.

Argus Montenegro foi um dos grandes músicos que este país já conheceu. Seu primeiro contato com a bateria se deu no início dos anos 50, época em que a noite brasileira nem sonhava com este tipo de música pré-fabricada que temos hoje. Nada de djs ou qualquer playlist eletrônica. Naquele tempo, os músicos eram a grande diversão das noitadas tupiniquins.

Montenegro chegou a viajar o mundo para poder tocar sua música. Conheceu muitas culturas, dividiu o palco com grandes nomes como Dick Farney, Elis Regina, Sérgio Mendes e Tom Jobim. Seus gêneros favoritos eram o jazz e o samba, ou melhor, a combinação destes dois elementos que deram a cara para a bossa nova. Argus era brasileiro acima de tudo, e o documentário nos mostra essa intrínseca nacionalidade gritando através de seu corpo o tempo inteiro.

A sensibilidade do diretor e roteirista Pedro Isaias Lucas é a grande sacada deste documentário. Conseguimos enxergar o protagonista de forma limpa e sem filtros. Todos os seus sentimentos estão à flor da pele. Sua paixão pela música, seu jeito sistemático de ser, o patriotismo, o saudosismo de um tempo bem vivido, a inquietude de um músico completamente dedicado, entre outros elementos que estão presentes nesta belíssima obra.

O ponto de vista de Pedro Lucas também se torna bastante contundente a partir de sua narrativa despretensiosa. Através de uma câmera frontal, cheia de closes e vibrações, a trajetória de Argus Montenegro é contada pelo mesmo como se estivéssemos ali, sentados bem em frente a ele, participando de uma conversa informal sobre a vida.

Com toda a certeza o ápice desta obra é justamente a maneira com que Argus lidou com a música e o anonimato durante o período da velhice, e quando não conseguiu mais tocar como antigamente, devido a limitações do corpo e acidentes de percurso, que o paralisaram de forma brusca.

O filme também traz um pouco da vida familiar do baterista, com depoimentos bastantes sinceros de seu filho José Augusto (também baterista) e sua ex-companheira Pegui Montenegro, que abdicou de muitas coisas para ajudar seu amado a seguir a carreira que tanto sonhou.

Argus Montenegro & A Instabilidade do Tempo Forte é um documentário que não precisa dizer claramente tudo o que queremos saber. A beleza de sua poesia está nas nuances sobrepostas ao jeito de ser do protagonista. Mesmo o lado mais sombrio de Argus não deixou de ser abordado por uma questão de cordialidade, ao contrário, conseguimos enxergar um ser humano comum, cheios de falhas e defeitos, que acabou deixando muita coisa de lado, inclusive sua esposa e família, por causa de sua eterna paixão, a música.

Trailer:

*Crítica também postada no site Blah Cultural

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